domingo, 23 de novembro de 2014

Mordida Caprichada

Prepare o seu apetite.

Chef
(EUA, 2014)
Dir.: Jon Favreau
Com Jon Favreau, Sofia Vergara, John Leguizamo, Oliver Platt
1h49 min - Comédia - EM DVD e BLURAY


Se você não sabe ao certo quem é Jon Favreau, pode ficar tranquilo, pois você já o viu antes. 

Jon Favreau é um diretor/ator dos bons, que já fez muita coisa que você já viu. Participou de alguns episódios de Friends, dirigiu os dois primeiros filmes do Homem de Ferro, foi o coadjuvante engraçado em algumas comedias românticas e interpretou um punhado de outros bons personagens no cinema. 

E agora, escreveu, dirigiu e atuou em "Chef", onde interpreta Carl Casper, um renomado cozinheiro que após ser demitido de um restaurante 5 estrelas por conta de uma má critica, decide retornar às origens para fazer o que faz de melhor. 


Se eu tivesse que usar uma metáfora culinária para descrever este filme, falaria para não ter moderação alguma ao apreciar este delicioso filme e dar uma bela mordida. Daquelas desconcertantes, onde ingredientes caem para fora do sanduíche e que deixam a sua mão cheia de molho. 

Não seria um exageiro. Até porque, faria juz ao estilo de comida servida pelo personagem de Carl Casper, na segunda metade do filme, onde ele (re)começa seu negocio em um animado caminhão de comida e sacramenta a qualidade de entretenimento que o filme tem a oferecer. 

Qualidade, também na interpretação de Jon Favreau, que transborda a felicidade de dirigir seu projeto com tamanha paixão - equivalente a de seu personagem pela culinária simples e do coração - que o público consegue captar o sentimento com a mesma facilidade em que se cativa pela história. 

O filme ainda traz uma discussão muito boa sobre o peso que as redes sociais possuem no mercado. Como uma postagem errada ou o vazamento de um vídeo pode influenciar uma carreira (positiva ou negativamente). E como a mesma rede social, quando bem aproveitada, pode ser crucial no crescimento de um negócio e de uma marca. Além do feliz detalhe após cada postagem no Twitter.

Pode até ser que você fique um pouco frustrado com o final apressado, colocado mesmo com a boa evolução do filme em sua segunda metade - que já daria um final muito bom para a história - mas se considerarmos os ingredientes adicionais, como as participações especiais inspiradas de Robert Downey Jr. e Scarlett Johansson, "Chef" desponta como um filme caloroso e acolhedor, como uma refeição sem grandes elaborações. Mas que feito com muito capricho e carinho, é capaz de acalentar a alma e de fazer o público se sentir bem. 

Atacar.



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A Vida Como Ela é.

Você nunca verá algo igual a este filme.

Boyhood - Da Infância à Juventude
(Boyhood; EUA, 2014)
Dir.: Richard Linklater
Com Patricia Arquette, Eller Coultrane, Lorelai Linklater, Ethan Hawke
2h53min - Drama




Adoro o momento em que sobem os créditos. O fim da história e a invasão da tela preta, que permite uma reflexão sobre o que acabou de assistir. É um momento que chamo de "momento wow". Pode servir tanto para o caso de um "wow, que lixo de filme", quanto para um "wow...", que não precisa ter palavras para descrever o quão impressionado fiquei ao final da sessão.

Esse filme teve um belo e duradouro momento wow.

Boyhood acompanha a história de Mason, dos 6 aos 18 anos de idade. À medida em que o filme passa, vemos influências surgirem e momentos que poderão definir o caráter e moldar a personalidade de um futuro adulto. 

Caramba, como vocês cresceram....

O principal diferencial deste filme para os demais filmes sobre infância é que, para maior veracidade, o mesmo ator foi filmado ao longo de 12 anos, acompanhando o desenvolvimento físico e o situando num retrato fiel do seu crescimento, e principalmente, do mundo em que cresceu. São ícones como um iPod, ou uma música que marcou o ano de lançamento também ajudam a situar o espectador na época em que determinado trecho da infância de Mason se encontra.

Não espere por um filme que vai lhe mostrar o passo a passo do crescimento e os momentos marcantes da vida de uma criança/adolescente. Todos eles passarão pela vida de Mason, mas sem que precisem ser compartilhado com o público. O verdadeiro trunfo do filme na verdade, é poder acompanhar além do desenvolvimento físico do protagonista, conforme ele cresce rumo à adolescencia, o desenvolvimento da personalidade de personagem e como é influenciado por pessoas que entram e saem da sua vida com o passar dos anos. Assim como a vida, não há a necessidade de um grande clímax, mas a importância de desfrutar cada momento que um descreve como importante ou até mesmo crucial para si.

Em Boyhood, ainda pode-se notar a discussão sobre a gradual transição do mundo infantil, com uma visão pitoresca do que parece ser um estranho mundo dos adultos para, aos poucos, integrar esse mundo e deixar a infância para trás.

E ao longo do filme, a estranha duplicidade de ter o olhar de uma criança que enfrenta diferentes experiências, e ao mesmo tempo, poder ser um personagem onipresente, como um parente adotivo que acompanha o crescimento de Mason e a dolorosa sensação de que o tempo passa rápido demais.

Como filho que sou, pai que sou e como uma pessoa que teve uma infância com os mais diversos adjetivos que a descrevem, recomendo que assista a Boyhood. Facilmente, um dos melhores filmes de 2014.

Wow.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O fim do mundo.

O blog desiste oficialmente de Nicolas Cage (até segunda ordem)

O Apocalipse
(Left Behind; EUA, 2014)
Dir.: Vic Armstrong
Com Nicolas Cage, Chad Michael Murray, Lea Thompson
1h44 min - Drama - 12 Anos


Eu gosto de ver Nicolas Cage na telona. 

Ele já fez de tudo. Quem assistiu "A Rocha", "Adaptação" e "Despedida em Las Vegas", por exemplo, sabe do que ele é capaz de fazer. Quem viu "O Vidente", "O Motoqueiro Fantasma" e esse "O Apocalipse", também sabe que ele é capaz de fazer más escolhas.

Nicolas Cage interpreta Rayford Steele, piloto de avião com o casamento abalado, que após um melancólico encontro com sua filha no aeroporto, embarca para Londres em um vôo onde vai testemunhar em menor escala, um evento mundial onde pessoas de todo o planeta, sumirão em um piscar de olhos. Conhecido também como "Raptura". 

Aperte os cintos aí, porque a coisa vai ser braba...
Como não comento religião, por respeitar o direito de cada pessoa a ter suas crenças, vou falar apenas do que acontece em cena. 

Então vamos falar de "tensão", ou a completa falta de. 

Tensão se manifesta visualmente. No cinema, pode se obter tensão visual por efeitos visuais, que no filme são de muito mal gosto, quanto nas atuações dos atores. E se atuações podem elevar o patamar em filmes de baixo orçamento, aqui, novamente, a situação não ajuda. Nicolas Cage é apenas a desastrosa ponta de um iceberg de filme onde nenhuma - e nenhuma mesmo - atuação se salva. O que prejudica muito as cenas onde o clima deveria ser tenso.

Tensão também é som. E se os efeitos sonoros do filme são de qualidade, a trilha sonora, que em diversos momentos da história do cinema já se fez maior do que seus personagens, aqui simplesmente não parece se encaixar com o que vemos na tela. 

O resultado final, parece ser um filme ruim feito para a TV, que, por ser a adaptação de um best-seller, ganhou uma chance na tela grande e um ator consagrado para estampar o pôster.

Passe longe.




quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Viagem Insólita

Um dos melhores filmes de 2014, já disponível no Netflix.

Locke
(ING; 2014)
Dir.: Steven Knight
Com Tom Hardy, Ruth Wilson, Olivia Colman, Andrew Scott
1h24min - Drama


Se você gosta de filmes agitados, não precisa terminar de ler esse post.

O mesmo vale para o leitor claustrofóbico.

Mas se você não se enquadra em nenhuma das "categorias" acima, você está apto a assistir a um dos filmes mais interessantes e bem construídos do ano. Estou falando de Locke.

E Locke é um filme a ser evitado por os dois públicos citados, porque se trata de uma história muito boa, muito tensa e que se passa - integralmente - dentro de um carro.

O personagem-título, é um homem que cometeu um erro. E por conta desse erro, tomou uma decisão que lhe obrigará a fazer uma viagem de carro em direção à Londres, por uma hora e meia (o tempo do filme). E no caminho, resolverá algumas pendências por telefone.

Imagine se fosse no trânsito de São Paulo...

Acredite quando digo que este é um dos filmes imperdíveis de 2014. 

O primeiro motivo é o melhor que o filme tem: Tom Hardy. O ator que tem um repertório que trafega desde comédias bobinhas (Guerra é Guerra) a Vilões (Bane em O Cavaleiro das Trevas Ressurge), entrega uma das melhores interpretações do ano. Rico em trejeitos e tiques que ajudam a mostrar uma complexidade por trás da aparência calma de um homem que, em teoria, tem quase tudo sob controle. 

O enredo enxuto e bem amarrado faz a tensão emergir na tela à medida em que a situação vai se tornando sufocante para o protagonista, de acordo com as reações dos demais personagens que estão do outro lado das conversas telefônicas. E aqui vale destacar outro grande ponto do filme: As interpretações coadjuvantes, as quais não vemos - apenas ouvimos via speakers do carro - são, sem exceção, excelentes.

Extremamente bem dirigido, Locke ainda se completa por ser um filme com um visual elegante, utilizando sinais de trânsito, reflexos e desfoques de luzes de carro para pulsar um ambiente incontrolável e para afogar o personagem em informações visuais quando necessário - alusão ao turbilhão de emoções pelo qual passa durante todo o filme.

Se o tema central do filme é assumir o peso da responsabilidade pelas escolhas feitas, então a escolha de colocar o peso do filme no ator vale toda a experiência de assistir a Locke.