quarta-feira, 26 de março de 2014

Non Stop, Non Sense

Liam Neeson distribuindo sopapos no ar.

Sem Escalas
(Non-Stop; Reino Unido, França, EUA, 2014)
Dir. Jaume Collet-Serra
Com Liam Neeson, Julianne Moore, Scott McNairy
1h46 min - Ação - 14 Anos



Sabe aquelas piadas clássicas sobre estereótipos entrando em um avião? Junte a eles, Liam Neeson, ator que tem embarcado em filmes de ação com boas injeções de adrenalina e você tem esse "Sem Escalas". Ou "Busca Implacável em um Avião", como poderia muito bem ser chamado.

O enredo é simples: Um delegado, uma menina, uma moça falastrona e mais um punhado de pessoas suspeitas entram em um avião. Durante o vôo, o delegado começa a receber mensagens no celular, pedindo um deposito de 150 milhões numa conta, caso contrario, executará um passageiro em pleno vôo a cada 20 minutos. 

"Silêncio aí no 3B!"
A verdade, é que o filme não busca se levar tão a serio e isso acaba sendo uma coisa boa. Quem assistiu ao trailer antes de entrar nessa, sabe exatamente o que ira encontrar. E boa parte disso, o filme também cumpre. As poucas cenas de ação que o filme tem são entregues na medida do possível e o filme fica mais nos diálogos e na investigação. A brincadeira fica mais interessante, quando o diretor resolve deixar todos os passageiros (exceto a menina, obviamente) sob suspeita. Você pode até suspeitar do protagonista, se quiser, ja que muitas decisões que toma durante o filme são confusas e certas horas, exageradas demais. 

Mas ai, tem a explicação dos motivos que levaram a bandidagem a executar tal plano. Não vou entrar muito em detalhes, mas a ideia é tão absurda e incoerente com a proposta do filme, que deixa um gostinho azedo no final da sessão. Além de ser desnecessária. 

É como uma piadinha divertida, que empolga e prende a atenção de quem esta ouvindo, mas a "punch line" quase estraga tudo. 

Se comprar um ingresso, deixe o cérebro cuidadosamente na porta do cinema e compre um belo balde cheio de pipoca. Você pode precisar dele. 





segunda-feira, 24 de março de 2014

Folk Caloroso

Os Irmãos Coen, em grande estilo.

Inside Llweyn Davis - Balada de Um Homem Comum
(Inside Llewyn Davis; EUA, 2013)
Dir.: Ethan Coen e Joel Coen
Com Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake
1h45min - Comédia - 12 Anos 



Defenda tudo o que ama. E defenda de todos.

Os Irmãos Coen, defendem muito bem. Seus filmes, ainda que diferentes uns dos outros, conseguem ter um estilo forte e característico de seu cinema. Como uma névoa estranha e sarcástica de personagens peculiares caminhando em histórias que, ao mesmo tempo em que beiram o non-sense, parecem se agarrar a uma dura realidade. E aqui, a realidade do protagonista Llewyn Davis não é apenas dura, como tragicômica.

Mas Llewyn Davis defende o que ama - a sua música. É um apaixonado inquieto pelo mundo em que vive. Busca o sucesso e a fama, mas sabe que o caminho para lá será tortuoso. Em meio a apresentações no Gaslight Café e dormir no sofá da casa de amigos, Llewyn enfrentará seus problemas com ironia e com a sua paixão.

Mas seria Llewyn o homem certo na hora errada?

Please, Mr Kennedy
Tudo e todos atiram contra o protagonista que se encontra numa maré de azar. Cada nova sequencia de eventos, parece bater na cara de Llewyn (em alguns casos, literalmente), interpretado brilhantemente por Oscar Isaac, que segue em frente, em busca de uma nova alternativa. É como se ele estivesse passivo e acomodado com a sua situação atual, mas com a certeza de que um dia a coisa irá engrenar.

A construção e evolução do filme é uma caminhada prazerosa, sem qualquer necessidade de resolução imediata. Os coadjuvantes são inseridos cirurgicamente em cada cena com diálogos precisos e na medida certa para o andamento do filme.

E assim segue a "balada" de Llweyn Davis. Pouco menos de duas deliciosas horas sobre a busca de um antiherói por algo além de 15 minutos de fama. A exposição de minuciosidades do homem comum, buscando uma jornada extraordinária se encaixa perfeitamente na filmografia dos Irmãos Coen, fazendo boa companhia a bons filmes realizados anteriormente por eles.

Tudo muito bem defendido. De tudo e de todos.



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Linha de Montagem

Nada em 2014, será tão divertido.

Uma Aventura Lego
(The Lego Movie; EUA, 2014)
Dir.: Phil Lord, Christopher Miller
Com as Vozes de Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Arnett, Morgan Freeman
1h40min - Aventura - Livre




Confesso que sou muito suspeito para falar desse filme. Sou aficcionado por Legos desde pequeno. E sou chato também. Manual de instruções, peças na mesa e, pacientemente, peça a peça, até o produto final montado. Ai sim, posso destruir e construir novas coisas. 

Mas o melhor do Lego, sempre foi a reutilização das peças para novas historias. Recriar. Inovar. E esse é o maior mérito do filme... De Lego. Utiliza a dinâmica do próprio brinquedo para transportar o espectador para diferentes lugares, conforme a aventura pede. 

E a aventura começa com Emmet. Um cara legal, que faz tudo através de um "manual de instruções" para começar o seu dia e seguir para o trabalho de construtor. Um dia se depara com uma estranha peça, caçada por um grupo de rebeldes que lutam contra o Senhor Negócios, homem poderoso que planeja colar todo o universo Lego, para que tudo fique como está. 

Mais Café!
Apesar do apelo infantil que a história, as cores e o próprio brinquedo possui, é preciso dizer que este filme não é somente para crianças. E poderia muito bem ser. Aliás, o filme poderia descambar para um grande comercial de duas horas, mais as favas de dinheiro gasta com os pequenos na loja de brinquedos mais próxima, após a sessão. O filme esta cheio de piadas para os pais e referências adultas. "Tempos Modernos", "1984", maquinas de votações e por aí vai... Mas calma. A criançada certamente vai se divertir com as sequências de ação e com as piadas de humor físico, mas o filme brilha quando fala com o público cativo de construtores de lego, sentados do lado de fora da tela. 

O que fica explícito no terceiro ato da história. Se esforçando ao máximo para não entregar nenhum spoiler, o filme toma um rumo ousado para transmitir uma mensagem poderosa aos espectadores, em especial aos pais, que se divertiram a beça até então. 

É como a experiência do próprio brinquedo. Você segue o manual de instruções e constrói o que comprou. E num segundo momento, arrisca e transforma tudo em algo ainda melhor. Basta ter a criatividade e a mente aberta. 




domingo, 16 de fevereiro de 2014

Virtuosa Virtualidade

Spike Jonze e o Amor

Ela
(Her; EUA, 2013)
Dir.: Spike Jonze
Com Joaquim Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Amy Adams
2h07 min - 14 Anos


Interessante observar as reações quando dizia às pessoas que "Ela", é um filme sobre um homem que se apaixona pelo sistema operacional do celular. Caras franzidas, espanto. A certeza de uma história estranha e que, talvez, forme um péssimo filme. 

Adianto que o filme não é somente sobre isso. Vai além. Vai além, inclusive do que o trailer parece entregar.

Não se atendo apenas ao tempo onde o filme se passa, a Los Angeles futurista do filme, se mostra fria, superpopulada por pessoas que se aglomeram, mas não interagem entre si. Todas, no entanto, munidas de um aparelho com as quais interagem, pedindo musicas, informações, ou até mesmo, ocasionalmente, conversando com outras pessoas através do acessório.

Futurista?

E é neste cenário, que conhecemos Theodore Twombly (Joaquim Phoenix) Um homem consumido pela tristeza do fim de um casamento. E em meio à essa melancolia, trabalha escrevendo cartões comemorativos de pessoas reais. Ele é capaz de simular diferentes formas de emoção, sem ao menos ter um contato mais profundo do que meras informações registradas em um banco de dados.

Portanto, se apaixonar por Samantha, um sistema operacional, que faz exatamente isso, não parece ser algo tão fora do comum. Ou parece?

"Fala que eu te escuto, Scarlett"
Em mãos menos habilidosas, talvez o filme perdesse impacto. Poderia ser inundado de clichês e momentos piegas. Mas a verdade é que Spike Jonze tece com (muita) qualidade, uma história de amor inusitada, induzindo a plateia a se esquecer que, no fim das contas, Samantha é apenas voz. Culpa também, da surpreendente interpretação de Scarlett Johansson.  

O filme também acerta quando fala da banalização do uso da tecnologia. É uma critica, bem disfarçada. As relações humanas se equiparam com à uma relação virtual e a relação de Theodore com a sua vizinha, Amy (Adams, pra variar, excelente), mostra bem isso. Você pode até torcer por uma relação entre os dois - até porque, fica explicita a importância do contato humano - mas a necessidade que Samantha tem de se desenvolver e de aprender o mundo humano é tamanha, que ao invés de causar espanto, causa empolgação aos protagonistas. 

E ao fim, quando subirem os créditos, um sentimento incomodo poderá tomar conta de você. Provavelmente o fim de uma história de amor, que tenha simulado uma ampla variedade de sentimentos entre um homem e uma mulher, mas sob a ótica de um homem e uma maquina.